Quem cresceu entre os anos 90 e 2000 lembra de uma TV aberta repleta de apresentadores infantis, desenhos e cores. Hoje, ao ligar a televisão no mesmo horário, o cenário é outro: sirenes, perseguições e o famoso “ibope do crime”. Mas o que causou essa transformação radical na grade de programação?
1. O Fim da Publicidade Infantil (A Resolução 163)
O principal “vilão” para a programação infantil não foi a falta de audiência, mas a falta de verba. Em 2014, o CONANDA (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente) publicou a Resolução 163, que considera abusiva a publicidade direcionada ao público infantil.
Com as marcas impedidas de anunciar brinquedos e produtos infantis de forma direta, o interesse comercial das emissoras evaporou. Sem patrocínio, manter os direitos de exibição de desenhos caros se tornou um prejuízo financeiro. A lógica foi simples para as empresas: sem anúncio, sem desenho.
2. A Ascensão do Streaming e YouTube
Enquanto a TV aberta perdia força comercial, as crianças migravam em massa para o YouTube, Netflix e Disney+. Hoje, o público infantil prefere o conteúdo on-demand (quando e onde quiser) do que esperar o horário fixo de um programa na TV. As emissoras entenderam que lutar contra esse hábito seria uma batalha perdida e decidiram focar em um público que ainda consome TV linear: o adulto.
3. O Baixo Custo e o Alto Ibope dos Jornais Policiais
Se produzir um programa infantil é caro e não traz anunciantes, o jornalismo policial é o oposto. Programas como o “Cidade Alerta” ou o “Brasil Urgente” possuem um custo de produção relativamente baixo: basta uma equipe de reportagem, links ao vivo e um apresentador carismático.
Além disso, o sensacionalismo e a cobertura de crimes geram o chamado “Ibope de urgência”. O telespectador fica preso à tela para saber o desfecho de uma perseguição ou um caso de grande repercussão. Esse público é extremamente atrativo para anunciantes de farmácias, supermercados e serviços de segurança, preenchendo o vazio deixado pelas fábricas de brinquedos.
O Futuro da TV Aberta
A TV aberta brasileira está se tornando, cada vez mais, um canal de eventos ao vivo e prestação de serviço. O entretenimento infantil encontrou seu refúgio nos canais pagos e nas plataformas digitais, deixando para a antena comum a missão de informar (e, muitas vezes, assustar) o cidadão no dia a dia.












